Entre os maiores mistérios da vida – além dela mesma – os que mais me intrigam são o amor e a espiritualidade. Diante de tantos cursos e livros, palestras e aulas, sempre fiquei inconformado com as explicações e definições. Não pareciam suficientes.
Recentemente, uma experiência me fez refletir e, junto com leituras e estudos, consegui encontrar um caminho, que não é inovador, para entender esses dois aspectos, a meu ver, interconectados.
Acho importante frisar neste momento que a filosofia tem como principal significado o “amor à sabedoria”, que nada mais é do que a contemplação e reflexão sobre a vida com o objetivo de nos fazer viver melhor, ou seja, o ciclo de prática e teoria que se desenvolvem concomitantemente e que são inseparáveis.
E aqui começa nossa investigação: “amor á sabedoria” seria um tipo de amor? Assim como o amor fraterno ou romântico? Uma amizade? Seria possível classificar o amor?
Não!
A melhor resposta para o que é o amor vem dos primeiros filósofos que conhecemos. Faço aqui uma interpretação do diálogo entre Sócrates e Diotima em “O Banquete” de Platão:
“Por que Afrodite deve ou não ser considerada a deusa do amor? Ora, um deus é a aquilo que ele representa: Chronos é o deus do tempo, então Chronos é o próprio tempo; se Afrodite é a deusa do amor, então Afrodite é o próprio amor.
O amor é desejo, e enquanto desejo, entende-se que ainda não se possui o que é desejado. Quando se possui o que é desejado, não há mais desejo, portanto, não há mais amor.
Então, se Afrodite é o amor, ela deseja a si mesma, mas como ela é o próprio objeto de desejo, deixaria de ser o amor. Como diz, Parmênides: o que é, é, o que não é, não é. Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.
Mas o amor não é o desejo por qualquer coisa. O amor é o desejo por algo muito específico, e aqui o mito é utilizado para explicar o amor verdadeiro, não classificável ou categorizável: o amor é o desejo pelo bem. E o bem é o fundamento da realidade e da vida.
O bem é aquilo que desejamos e que mesmo ao possuí-lo continuamos desejando. Porque ao possuir o bem no presente, desejamos tê-lo no futuro. Desejamos o bem agora e para sempre.”
Entendo que isso explica por que não existem tipos de amores. O único e verdadeiro amor é o desejo pelo bem. O que podemos categorizar são as relações: relações de amizade, relações de trabalho, relações de comunidade, relações físicas e etc. Em todos os tipos de relações pode haver ou não o amor.
A amizade é a experiência a que me referi no início do artigo e que foi a ignição para essa reflexão. O amor que sinto pelos meus amigos e que sinto que eles têm por mim, me fazem crer que essa é a melhor definição de amor. Pois o bem que me fazem é o mesmo que desejo ter para sempre, e o bem que eu devo fazer a eles é o mesmo que desejo fazer para sempre.
Lembrando que isso vale para todos os tipos de relação em que haja amor.
Mas, qual é o elo entre os seres que se amam? O que nos faz transbordar para que haja esse encontro?
Percebi que o amor se realiza através de pensamentos, práticas, ritos e ações que buscam realizar o desejo pelo bem do outro.
Podemos entender isso como espiritualidade “não dogmática”, pois não se trata de religiosidade, porque consiste justamente no ato simbólico que expressa livremente o amor. Isso é o que nos faz transcender e nos conectar ao outro.
Ou seja, chamo de espiritualidade “não dogmática” o conjunto de práticas simbólicas que expressam o desejo pelo bem, independentemente de crenças religiosas. Digo que é espiritualidade porque envolve transcendência — não no sentido sobrenatural, mas no sentido de ultrapassar o eu e se abrir ao outro.
Na presença: servir, presentear, ouvir com sinceridade, estar presente mesmo que em silêncio, aconselhar, ajudar, entre tantas outras… são ações práticas que buscam realizar esse desejo pelo bem.
Na distância: bons pensamentos, saudade, lembranças e até objetos que por si só não são capazes de realizar o bem na prática, são elementos simbólicos desse desejo pelo bem.
Esses talvez sejam o verdadeiro amor e a verdadeira espiritualidade da vida que acontece nas relações e no tempo.
Se o amor é o desejo pelo bem, e a espiritualidade é sua expressão, então viver bem é aprender a desejar o bem continuamente. E o amor não é um estado, mas um movimento — e é nesse movimento que nos tornamos humanos.