O sentido da vida… por onde devo ir?

Ah! A crise existencial. Em algum momento da vida, cedo ou tarde, ela chega… e vai embora… e volta. Avassaladora. Parece que caímos em um buraco sem fundo. No fundo parecemos minúsculos diante de uma imensidão de problemas que antes não existiam. De repente, somos inundados por questões incômodas que não parecem nos levar a lugar algum…

O clássico diálogo entre Alice e o Gato de Cheshire (Lewis Carroll – 1865):

Alice: Você poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar daqui?

Gato: Isso depende bastante de para onde você quer ir.

Alice: Eu não me importo muito para onde.

Gato: Então não importa muito que caminho você tome.

Alice: …Contanto que eu chegue a algum lugar.

Gato: Oh, isso você certamente fará, se caminhar o bastante.

Costuma-se dar significado a esse diálogo como “se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”, mas acredito que seja uma simplificação que que coloca uma névoa sobre o que há de mais profundo na história da Alice e de todos nós.

Acredito que essa conclusão é contraditória em relação à moral da história. Ora, quem não sabe para onde ir, está paralisado diante da dúvida. Quando dizemos que qualquer caminho serve, estamos implicitamente dizendo que não se pode ficar parado, o importante é seguir, não importa para onde.

Na verdade, quando estamos diante questões existenciais, parar e refletir é importante, mesmo que pareçamos inertes. Não me parece muito prudente deixar a vida nos levar, e permitir que o acaso escolha nosso caminho. É mais perigoso na realidade do que em sonhos, como no de Alice.

O mundo atual é hostil à pausa. A velocidade da informação, a cobrança por produtividade, a necessidade de exibir evolução constante — financeira, profissional, social — tudo isso nos empurra para longe de nós mesmos. Espera-se que sejamos excelentes no que é valorizado, não no que realmente somos. Pensar virou luxo; refletir, quase um desvio.

No final, estamos todos perdidos.

Até esse trecho da história, Alice parece apenas reagir diante das situações que surgem. Ao se sentir incomodada e buscar uma direção pede ajuda e conselho. Queria que alguém desse a resposta certeira. Mas o gato não dá uma resposta pronta (ela não existe), e isso traz mais incômodo.

Nesse momento chave, o gato conduz Alice à maturidade: não importa quais sejam suas escolhas, a responsabilidade é sua. Você precisa conhecer a si mesma, entender seus sentimento e emoções diante do mundo a sua volta e, só assim, descobrir quais os seus objetivos e os melhores caminhos para alcançá-los.

A vida não vai facilitar para você, todos os caminhos terão obstáculos, buracos, precipícios. No meio do caminho você pode parar novamente, refletir e mudar a rota… enfim, tudo sua responsabilidade.

No fim, todos os caminhos convergem para o mesmo destino — a morte, que não deveria ser tabu, pois é a única certeza que compartilhamos. O que realmente importa é o que fazemos no intervalo entre o início e esse ponto final.

Portanto, não importa tanto qual é o nosso destino. O que importa é o caminho que escolhemos e que assumimos a responsabilidade de seguir, as experiências que vivemos, o conhecimento que adquirimos, as pessoas que conhecemos (que escolheram outros caminhos que se cruzaram de alguma forma, e que se vão), do nosso rastro na história que deixamos para que outros que queiram seguir caminhos semelhantes possam fazer a sua própria escolha.

Os caminhos são guias que nos levam e trazem, e vão e voltam. Não são linhas retas, são tortuosos. Um dia o nosso sonho acaba, mas ele permanece vivo nos sonhos de quem vem depois.

Que nossos sonhos não nos mantenham à deriva, mas nos ajudem a navegar.

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