Assim falou Zaratustra: “Deus está morto!”; assim falou Byung-Chul Han: O super-homem está cansado!
A icônica, famosa e polêmica frase de Nietzsche é muitas vezes atribuída à forte crítica do autor à religião – o que também é verdadeiro. Mas, além da superficialidade, essa frase também carrega um diagnóstico da sociedade durante a vida dele.
Em Assim falou Zaratustra, Nietzsche trata sobre a repressão moral de sua época, o que, na sua visão, impedia o ser humano de se desenvolver plenamente e de viver a sua liberdade verdadeiramente. Segundo ele, essa repressão teria origem no surgimento da religião.
O homem superior, ou super-homem, ou além-homem seria aquele que ser humano soberano sobre si mesmo, liberto das amarras de doutrinas ou leis morais universais. Isso, não somente em relação às religiões, mas também de qualquer coerção externa ou influência de outros.
O ser humano conquistaria essa soberania desenvolvendo-se através da contemplação, autoconhecimento, experimentação, análise e do silêncio. As crises daquela época teriam relação direta no conflito contra essa repressão e na força superior que ela teria sobre o ser humano e a sociedade.
Vale lembrar que esse é só um dos aspectos tratados no livro.
Em contraponto, Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, tentou mostrar uma evolução, como se vivêssemos o exato oposto do que na época de Nietzsche. A ascensão da democracia e do capitalismo neoliberal e o desenvolvimento de tecnologias e da comunicação seriam sinais da possibilidade da conquista da liberdade e da soberania do ser humano sobre si mesmo.
Essa transformação teria causado um outro tipo de crise: o distanciamento social, individualismo selvagem (corrida pela sobrevivência num contexto de capitalismo extremo), depressão e burnout. Na sociedade do desempenho impera o empreendedorismo, o trabalho como fim existencial do ser humano que produz e se produz.
O ser humano senhor de si também é o servo de si. A repressão externa agora é uma auto repressão. A crise existencial se instalou. Na verdade, o capitalismo e o desenvolvimento tecnológico não nos garante a liberdade nem, e tão pouco, a soberania sobre nós mesmos.
Nossa sociedade baseada no contratualismo é altamente regulada, não existe liberdade em todos os aspectos. A liberdade é categorizada e limitada e a coerção moral externa é imposta por leis e constituições. A repressão é enrustida.
O capitalismo vende a ilusão de liberdade exigindo do empreendedor a entrega total ao trabalho, pois o sucesso diante da concorrência dependeria apenas de seu esforço. A alienação não vem do dono do capital, nem a escravidão do senhor de engenho, vem de nós mesmos. Estamos consumidos pela produtividade e pelo desempenho. Ficamos doentes e nos entupimos de remédios para permanecer altamente produtivos.
O grande mal não está na espiritualidade nem na liberdade. Talvez, elas sejam justamente o caminho: o retorno ao silêncio e autoconhecimento, à reflexão e contemplação.
Eterno retorno?