Caminhos… #contos

Um chapéu encharcado absorvia como uma esponja a água da tempestade que castigava um homem que caminhava lentamente por um caminho de pedras. Ele segurava o chapéu sobre o rosto para que as gotas de chuva não incomodassem seus olhos. Vestia um sobretudo surrado que cobria todo o corpo e botas grossas. Na mão esquerda carregava uma mala e na direita um guarda-chuva que se recusava a abrir.

À direita do caminho havia um campo de flores que balançavam com o vento e espalhavam gotículas de água da chuva; à esquerda uma densa neblina cobria a visão de qualquer coisa; atrás uma sombra engolia e apagava tudo; à frente o caminho acabava… de repente. Nada mais havia.

Aquele homem parou no fim do caminho, ergueu o chapéu e cerrou os olhos tentando entender o que acontecia. Não olhava para trás. Nunca! O passado não existe mais, é impossível mudar algo que já aconteceu e a sombra já destruiu qualquer possibilidade de voltar.

Ele baixou a mala da mão esquerda que se abriu abruptamente ao tocar o chão. Muitas coisas velhas, quebradas e rasgadas pularam para fora. O homem sentiu um alívio em seu corpo e as dores na costas e na mão esquerda passaram. Estava deixando toda a angústia, culpa, ferida e todo o medo que guardava na memória.

Deixou o chapéu de lado e ergueu a cabeça para sentir a chuva em seu rosto… e sorria. Sorria ao sentir as gotas tocarem seu rosto. Sorria ao sentir o vento cortar sua pele. Não sentia dor. Não sentia nada. Apenas a natureza tocando seu corpo. A vida tocava sua alma.

Decidiu, então, abrir o guarda-chuva. Precisava se proteger, afinal, não queria deixar que mais nada lhe ferisse… corpo e alma. Olhou para os lados e viu a neblina e o campo de flores.

Primeiro pensou em seguir pelo campo de flores. Pétalas macias, perfume inebriante, a beleza da natureza… parecia ser o caminho mais confortável e agradável… previsível. Porém o caminho da neblina chamou sua atenção. Não podia enxergar nada além da ponta do nariz. Curioso e misterioso… desafiador.

Tirou do bolso do sobretudo um pedaço de papel, parecia ter algo escrito, mas não era possível entender. Poderia ser um desenho ou foto borrados ou qualquer outra coisa. Uma lágrima caiu sobre o papel. A última lembrança. A última dor. A última graça. A última perda. E deixou tudo ali para ser engolido pela sombra do passado.

Entrou pela neblina sem saber o que teria pela frente. Poderia ser sofrimento ou alegria. Certamente, seria sofrimento e alegria. E se escolhesse o caminho das flores? Também haveria sofrimento e alegria.

Todos os caminhos possuem sofrimentos e alegrias. Todos os momentos carregam dores e prazeres. Não importa qual seja o caminho escolhido, haverá o bem e o mal pela frente. A vida não é um paraíso, mas também não é um mar de lama.

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