Uma breve reflexão sobre trabalho, mérito e valor

Recentemente me deparei com uma publicação nas redes sociais onde aparecia um recorte de um debate em que um dos temas foi a diferença entre o tempo de trabalho e remuneração de duas atividades. Ambos trabalhavam 12h por dia, mas a remuneração tinha uma diferença estratosférica.

Então veio uma proposta de reflexão: Por que existe essa diferença? O que faz com que ela exista? Como alguns conseguem chegar lá e outros não?

O primeiro exemplo que me veio à cabeça foi o futebol e outros esportes de alto rendimento. Estou falando de um mesmo nicho: atletas de alto rendimento. Poderíamos acreditar que haveria uma igualdade, afinal, ambos precisam ter alto desempenho em suas atividades, treinar com intensidade e conquistar vitórias.

No entanto, o que vemos é uma diferença de remuneração entre atletas de diferentes modalidades. Um atleta de futebol parece ganhar centenas de vezes mais do que um atleta de atletismo ou ginástica, por exemplo. Mas se todos eles treinam, desempenham suas atividades e trazem vitórias, então todos eles mereceriam ter uma remuneração, pelo menos, parecida. Não é o que acontece.

Se pensarmos bem, nos E.U.A., atletas de futebol americano, basquete e baseball podem até ganhar mais do que os de futebol, mas isso começa a revelar de onde vem essa diferença entre mérito e remuneração: a mídia.

Um jogador de futebol de um grande clube não é remunerado pelo seu trabalho em si, mas pelo retorno financeiro de curto e, no máximo, médio prazo que proporciona ao seu clube. Isso vale para as modalidades citadas acima, nos E.U.A., pois lá a popularidade dessas modalidades é maior, portanto, têm um apelo midiático maior.

No mundo capitalista em que vivemos hoje, o valor do trabalho não está no mérito conquistado pelo nosso próprio esforço ou no tempo dedicado a ele (o trabalho em si). O valor do trabalho está na proporção entre investimento e retorno financeiro, independente do tempo e esforço, ou seja, independente de mérito.

Um atleta profissional do futebol pode não desempenhar tão bem seu trabalho dentro e fora de campo, que não vence campeonatos e, ainda assim, ter uma remuneração muito maior do que um medalhista de ouro nos jogos olímpicos e outras competições.

Repito: a remuneração desse jogador de futebol não vem do trabalho que ele exerce. Vem do patrocínio de grandes marcas que proporcionam um retorno financeiro ao clube devido à popularidade, publicidade, propaganda e midiatização.

Esse jogador de futebol, não é mais um jogador de futebol, é uma personagem, um garoto propaganda dessas marcas e, pior ainda, vendedor de um estilo de vida que está ao alcance de poucos, que é o sonho de muitos. Infelizmente, muitos compram essa ilusão.

Vou colocar nessa balança o valor e mérito do trabalho do professor. Eu sei que não parece justo comparar duas atividades de ramos diferentes, mas eu quero mostrar que a valorização e desvalorização de certas atividades são produtos de seu tempo, produzidos pela sociedade.

Esse mesmo jogador de futebol não teria destaque na Renascença, período em que o prestígio social se concentrava nas artes, na literatura e no pensamento humanista — financiados pelo mecenato, cuja ética também pode ser questionada. No Renascimento, sobretudo na Itália, a arte e a literatura refletiam uma mudança profunda no pensamento humano, orientada pela razão, pela beleza e pela valorização da humanidade. E, claro, isso não significa ignorar outras atividades altamente remuneradas da época, como o comércio e a atividade bancária; não se trata de romantizar períodos históricos como se fossem melhores ou piores, mas de entender seus valores.

Hoje, o capitalismo da era da tecnologia da informação e da especulação financeira, valoriza a exposição midiática que proporciona, de novo, o retorno financeiro maior que o investimento em pouco tempo. Atualmente, a busca é por ganhar mais pelo mínimo esforço, através da mídia, vender esse estilo de vida e ganhar mais.

Dito isto, por que o professor, que desempenha a atividade mais importante de uma sociedade – mais que a do médico, bombeiro, ou qualquer outro –, visto que, não existe um ser humano no mundo que não tenha passado pelas mãos de um professor, desde a creche até a formação universitária, e que ele forma em todos nós, mais do que o conteúdo programático de uma disciplina, mas também, valores morais, ética e cidadania, não é remunerado à altura?

A resposta está implícita: a atividade de um professor não traz retorno financeiro àquele que investe, seja o Estado (educação pública) ou grupo educacional (educação privada). Os resultados de investimentos em educação só podem ser avaliados a longo prazo – longuíssimo prazo – e, na maioria das vezes são intangíveis, pois estamos falando de conhecimento, moral, ética e cidadania. Portanto, o professor produz o futuro através da educação e não é remunerado por isso, pois o valor do seu trabalho só aparece depois de décadas, quando o valor não é mais percebido.

Podemos notar esse fenômeno nos diversos cursos que vemos na internet: um curso de um professor de filosofia é bem menos procurado e consumido do que um curso de “ganhe seu primeiro milhão em um ano”. Aquele curso que dá conhecimento para a vida e o trabalho enriquece o ser humano, mas não o professor. O curso que promete enriquecer o bolso, empobrece o ser humano e é instrumento de enriquecimento de um charlatão.

O ser humano se apequena cada vez mais diante de um sistema manipulado por poucos. Assim caminha a humanidade.

1 comentário em “Uma breve reflexão sobre trabalho, mérito e valor”

  1. Rodolfo Batista

    Interessante reflexão. A sociedade, na minha opinião, sempre irá valorizar o lucro financeiro, em detrimento do conhecimento para adquiri-lo, pois, como o próprio artigo aponta, todos querem fórmulas prontas e, seja como entretenimento, seja como inspiração profissional, as personalidades midiáticas sempre vendem a ideia do vencedor. Eles promovem o lucro porque precisam manter o sistema que os alimenta… Nesse sentido, a exposição da figura de um mestre que ninguém conhece, mas te ensina o que você deve saber não tem o mesmo valor que uma personalidade que recebeu os louros da vitória, este sim, para a sociedade, tem valor porque chegou onde todos querem estar, não importa como…

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